Proibidos fora do Brasil, agrotóxicos de multinacionais contaminam a Amazônia
Pareceres do Ibama obtidos por SUMAÚMA apontam que as maiores empresas de pesticidas do mundo, como Syngenta e Bayer, mantêm em circulação no país produtos ‘altamente tóxicos’ ou considerados cancerígenos pela União Europeia
Rubens Valente, Terra Indígena Tirecatinga, Rio Buriti, Sapezal, Amazônia
A aldeia Serra Azul fica a poucos metros do Rio Buriti, no coração da Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal, a cerca de 510 quilômetros de Cuiabá, em Mato Grosso. É um rio calmo e fundo, com margens protegidas por uma densa vegetação e árvores imponentes como as palmeiras que lhe dão o nome. Em alguns pontos, a água cristalina permite ver cardumes de peixes e pedras ao fundo. Há sete meses, porém, os Indígenas se recusam a utilizar essa água para qualquer tarefa cotidiana na aldeia. Não a bebem, não lavam roupas, não se banham. Desde setembro passado a aldeia é atendida por um caminhão-pipa com 5 mil litros para abastecer a caixa-d’água que serve à comunidade. O rio que banha sua aldeia se tornou perigoso.
A perda da confiança dos Indígenas na água do Rio Buriti tem bases científicas. Um amplo estudo concluído em 2022 pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) analisou amostras de plantas medicinais cultivadas pelos Indígenas na TI Tirecatinga, como breozinho, pata-de-vaca, negra-mina, birici, mangava-brava, raiz-doce. A investigação, que teve o apoio da Operação Amazônia Nativa (Opan), uma organização indigenista que existe desde 1969, detectou resíduos de agrotóxicos em 88% delas.
“Seria até hipocrisia da gente continuar bebendo uma água que a gente sabe que vai… vai dar alguma coisa ruim”, diz a liderança da aldeia Cleide Adriana Terena, filha de um pai Nambikwara e uma mãe Terena. O estudo mostrou 11 diferentes agrotóxicos entre as amostras, com uma média de frequência de detecção de quatro por amostra. A maioria é classificada como inseticida (45%), seguida de fungicida (36%) e herbicida (18%).

As descobertas foram além. O estudo concluiu que, dos 11 agrotóxicos identificados nas plantas do Território Indígena, cinco “são proibidos na União Europeia (atrazina, carbofurano, clorpirifós, tiametoxam e acetamiprido)”. A conclusão foi inequívoca: “A presença desses resíduos de agrotóxicos indica contaminação ambiental dentro da Terra Indígena Tirecatinga”.
Um estudo da organização não governamental Public Eye aponta inúmeras razões para o banimento dos agrotóxicos na União Europeia. Em 2018, produtos eram proibidos por conter riscos de “morte por inalação, defeitos congênitos e reprodutivos ou desordens hormonais, como câncer” (leia mais abaixo). Embora proibida na UE, uma série de agrotóxicos tem sua exportação autorizada, o que demonstra uma “hipocrisia”, conforme textos publicados na Europa.
Pesquisas confirmam que agrotóxicos proibidos na União Europeia são largamente comercializados e utilizados na zona rural do Brasil. São produtos fabricados por gigantes como a Syngenta, fundada na Suíça e adquirida, em 2017, pela empresa estatal ChemChina (China National Chemical). Presente em mais de 100 países, a Syngenta afirma empregar, só no Brasil, 4 mil funcionários e movimentar três fábricas. Declarou uma receita global de 28,8 bilhões de dólares (ou cerca de 158 bilhões de reais) apenas no ano retrasado. Em 2024, como uma investigação de SUMAÚMA mostrou, a Syngenta deixou de pagar ao governo brasileiro, por isenções fiscais, 4 bilhões de reais, o equivalente ao orçamento do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima naquele ano. A empresa tem registro para ao menos três produtos à base de acetamiprido, além de outros dez à base de atrazina e mais 22 à base de tiametoxam, três dos princípios ativos proibidos na União Europeia achados na Terra Indígena Tirecatinga. O acetamiprido está presente em 62 produtos autorizados no Brasil, a atrazina em 85 e o tiametoxam em 26 – eles são fabricados por diversas empresas nacionais e internacionais, entre elas a alemã Basf (gigante que usa o acetamiprido), segundo os dados do Agrofit, um banco de informações sobre produtos agroquímicos registrados no Ministério da Agricultura, e das próprias empresas. A Syngenta é considerada a maior empresa do mercado de agrotóxicos brasileiros. A Basf é o maior grupo químico do mundo.
Outra potência no setor, a Bayer, fundada na Alemanha no século 19, vendeu para a América Latina, apenas em 2024, um total de 6,2 bilhões de euros (cerca de 38,5 bilhões de reais). O valor se refere à divisão de crop science do Grupo Bayer, que envolve “proteção de cultivos e sementes”. Em todo o mundo, só em 2024 a Bayer vendeu um total de 46,6 bilhões de euros (ou cerca de 291 bilhões de reais), incluindo sua divisão farmacêutica.
O papel do Brasil foi fundamental nos números da empresa nos últimos anos. “O desenvolvimento geral muito positivo das vendas foi atribuído principalmente aos aumentos de preço e volume no Brasil em fungicidas, onde os negócios se beneficiaram particularmente do lançamento do FoxXPro™. Também registramos um aumento nas vendas em herbicidas”, diz o relatório da Bayer sobre 2019.
SUMAÚMA obteve, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), o resultado da avaliação, feita pelo Ibama, do potencial de periculosidade ambiental do fungicida FoxXPro™, usado em culturas diversas como algodão, milho e soja. O Ibama considerou o FoxXPro™ “muito perigoso ao meio ambiente” e fez as seguintes advertências: “Este produto é altamente persistente no meio ambiente; este produto é altamente tóxico para organismos aquáticos (algas, microcrustáceos e peixes)”.

O fungicida FoxXPro™ é composto pelos ingredientes químicos bixafem, protioconazol e trifloxistrobina. SUMAÚMA não encontrou registro de que o fungicida esteja proibido na União Europeia. Mas, em 2024, a UE aprovou um regulamento a fim de estabelecer “novos Limites Máximos de Resíduos (LMR) para a trifloxistrobina […] em vários produtos alimentares”.
Um dos produtos mais populares da Syngenta no Brasil era, até poucos anos atrás, o Paraquat, com o nome comercial de Gramoxone 200. Em 2017, porém, o governo proibiu sua comercialização no país a partir de 2020. Desde então passou a ser substituído, entre os agricultores brasileiros, pelo Diquat, com o nome comercial de Reglone. Ao analisar o produto no início de 2024, o Ibama apontou que ele também é “muito perigoso para o meio ambiente”. Afirmou ainda que é “altamente persistente no meio ambiente” e “altamente tóxico” para minhocas e organismos aquáticos.
Pela lei, o Ibama é responsável pela análise do impacto no meio ambiente sempre que as empresas registram, no Ministério da Agricultura e Pecuária, a intenção de comercializar um agrotóxico no Brasil. A análise sobre o impacto à saúde humana cabe à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – que não respondeu ao pedido de informações via LAI feito por SUMAÚMA.
A União Europeia deixou de renovar a licença para uso do Diquat em outubro de 2018, depois que a autoridade sanitária identificou “um elevado risco para trabalhadores, transeuntes e residentes”.
Acionado pela LAI para que apresentasse os processos de autorização dos agrotóxicos apontados como “altamente tóxicos” pelo Ibama, o Ministério da Agricultura e Pecuária se recusou a divulgar a informação, sob a alegação de que eles possuem “sigilo legal de caráter industrial e empresarial”. SUMAÚMA recorreu, sob o argumento de que os dados possuem um evidente interesse público, dadas as possíveis consequências dos produtos à saúde humana, mas o pedido foi novamente negado pelo secretário adjunto de defesa agropecuária, Allan Rogério de Alvarenga.

Multa milionária e agrotóxicos adulterados
A Syngenta esteve no centro de um escândalo tornado público pelo Ibama em 2024. O órgão pediu à Justiça, por meio de ação movida pela Advocacia-Geral da União (AGU), o bloqueio de 90 milhões de reais da empresa, a título de indenização por crimes ambientais como reparação pela suposta venda de agrotóxicos adulterados.
Segundo a AGU, a empresa teria usado o conservante bronopol “em níveis quase três vezes acima da quantidade autorizada” para a produção do agrotóxico Engeo Pleno, na fábrica da Syngenta em Paulínia, no estado de São Paulo. Produto utilizado em diversas culturas, como soja, milho e algodão, o bronopol, conforme a AGU, “também foi ilegalmente adicionado aos produtos Karate Zeon 250 S e Karate Zeon 50 CS, que sequer previam a utilização de bronopol na fórmula”.
Na ação judicial, o Ibama apontou, em nota técnica, que a Agência Europeia dos Produtos Químicos, o órgão regulador da União Europeia, classifica o bronopol como “muito tóxico” para a vida aquática e alerta que pode causar “sérios danos oculares, irritação de pele e irritação respiratória”.
Fazenda de produção de algodão faz divisa com a Terra Indígena Tirecatinga, no estado de Mato Grosso. Foto: José Medeiros/SUMAÚMAProcurado por SUMAÚMA para falar sobre as multas aplicadas à Syngenta, o Ibama informou que, em maio de 2024, a empresa “optou por aderir à conversão das obrigações em serviços ambientais”. Entretanto, disse o Ibama, “um dos processos prosseguiu, para que fosse avaliada a aplicação de sanção restritiva de direito” – penalidades aplicadas a infratores que limitam ou retiram seus direitos ou atividades. Em maio de 2025, o Ibama decidiu pelo cancelamento do resultado da avaliação do potencial de periculosidade ambiental do Engeo Pleno S.
A avaliação ambiental é um dos requisitos para que um produto seja comercializado no Brasil. O Ibama decidiu fazer esse novo estudo porque descobriu a presença do bronopol em quantidade diferente daquela que havia sido analisada na primeira autorização, que é concedida pelo Ministério da Agricultura depois de ouvir o Ibama e a Anvisa.
A Syngenta recorreu da decisão do órgão ambiental sobre o cancelamento do resultado da avaliação e o recurso “encontra-se em análise pela autoridade competente”. O recurso da empresa permite que o produto continue sendo comercializado no país. O processo não tem desfecho até agora. Além do processo administrativo, segue em tramitação o processo judicial, ainda sem sentença.
A respeito do caso bronopol, a Syngenta emitiu uma nota em 2022 pela qual confirmou que uma inspeção do Ibama na sua fábrica em Paulínia em 2021 “identificou uma não conformidade no processo produtivo de lotes específicos” de três agrotóxicos. Por isso, disse a empresa, o Ibama “determinou a obrigatoriedade de que os volumes de lotes específicos produzidos entre setembro e novembro de 2021”, que ainda não tivessem sido utilizados, fossem recolhidos. A Syngenta decidiu incluir “lotes adicionais a este recall” dos mesmos três produtos e orientou os produtores rurais a fazerem as devoluções.
Empresa gigante, a Syngenta, é acusada pelo Ibama de vender agrotóxicos adulterados. Foto: divulgação/SyngentaA máquina de lobby das corporações
Manter no Brasil o uso de agrotóxicos perigosos exige muito esforço político. Em 2019, a Syngenta, a Bayer e outras 50 empresas da indústria de pesticidas, “germoplasma (mudas e sementes), biotecnologia e bioinsumos” fundaram a entidade sem fins lucrativos CropLife Brasil (CLB), um grupo de pressão sediado na região de edifícios corporativos da Avenida Chucri Zaidan, em São Paulo. A equipe tem ao todo 27 cargos, como os de “gerentes regulatórios”, e uma gerência de relações governamentais. A CLB diz que trabalha, entre outras frentes, para “fortalecer o diálogo com consumidores, formadores de opinião e governos”.
O estudo “Comércio tóxico”, divulgado pela organização não governamental Amigos da Terra em 2022, definiu a entidade como “um dos maiores grupos de lobby do agronegócio”.
Conforme divulgado pela CropLife Brasil em seu site, suas associadas representam “71% do faturamento da indústria de defensivos químicos no Brasil”. “A CLB trabalha para regulamentar o setor e estimular o uso correto dos insumos para o país continuar avançando no setor agrícola”.
Quando procurada para comentar esta reportagem, a assessoria da Bayer no Brasil direcionou a SUMAÚMA para a CLB, sob o argumento de que seria “uma questão que envolve o setor”.
O estudo da Amigos da Terra diz que tanto a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) quanto a CLB, ao lado do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), que tem 22 empresas associadas, “fizeram lobby em apoio ao PL do Veneno”, uma referência ao Projeto de Lei 6299/2002, que facilitou o uso de agrotóxicos no Brasil.
“Essas empresas e suas associações fazem lobby tendo diretamente como alvos o Poder Executivo e o Legislativo, inclusive financiando campanhas eleitorais para representantes da bancada ruralista. Eles também fizeram lobby através de campanhas criadas para moldar a narrativa política e influenciar a população em geral”, diz o levantamento, assinado pelas professoras universitárias e pesquisadoras Larissa Mies Bombardi e Audrey Changoe.
Autora do livro Agrotóxicos e Colonialismo Químico (Editora Elefante, 2024), a partir de 2019 Bombardi relatou ameaças de morte e tentativas de desqualificação do seu trabalho e, por isso, conta que teve que sair do Brasil e trabalhar na Europa.
Em nota a SUMAÚMA, a Syngenta respondeu que “mantém um diálogo constante com autoridades, governos, órgãos reguladores, mídia e sociedade, visando a informação e o debate baseados na ciência” e que “conduz todas as suas tratativas de forma ética e transparente”.
Contudo, a Syngenta não respondeu quanto gastou desde 2022 com trabalhos ligados ou semelhantes ao lobby. A mesma informação também não foi informada pela Bayer ou pela CLB. Segundo o estudo “Comércio tóxico”, “grandes associações do agronegócio que representam a Bayer, a BASF e a Syngenta contribuíram com cerca de 2 milhões de euros (cerca de 12,4 milhões de reais na cotação de janeiro de 2026) para apoiar as atividades de lobby do Instituto Pensar Agro”.
Criado em 2011 e hoje formado por 58 associações do agronegócio, o Instituto Pensar Agropecuária (IPA) é vinculado à bancada ruralista, ou Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), e tem por objetivos “garantir o respaldo técnico e das ações específicas que tramitam no Congresso Nacional, além de promover a interlocução com os poderes Judiciário e Executivo”, segundo sua própria definição em site na internet.
São associadas ao Instituto Pensar Agropecuária duas das principais representantes da indústria do agrotóxico: a CropLife Brasil (CLB) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal, o Sindiveg.
A professora Carolina Panis, associada à Universidade Estadual do Oeste do Paraná, a Unioeste, coordena um estudo que há dez anos investiga a relação entre a contaminação pelo uso de agrotóxicos e a incidência de câncer na população de 34 municípios do Paraná. Ela disse a SUMAÚMA que a indústria do agrotóxico reiteradamente nega a ligação dos princípios ativos dos seus produtos aos problemas de saúde na região.
“Eles são negacionistas. Dizem que não é isso, não. É muito famosa a história de que eles encomendam estudos que negam os resultados negativos para a indústria, patrocinam pesquisadores que dizem que o uso dos produtos agrotóxicos é seguro, que não tem problema. Isso é mais comum fora do Brasil. Aqui a coisa é mais velada. Eles nadam de braçada. O negacionismo tem uma força impressionante, em tudo. A pessoa acredita naquilo como se fosse a verdade divina. Eles fazem a propaganda de que, sem o agrotóxico, o planeta vai passar fome, e a pessoa agricultora vai quebrar”, disse Panis a SUMAÚMA.
Uma recente reportagem do UOL identificou que 196 propostas apresentadas por parlamentares no Congresso Nacional na verdade foram redigidas por lobistas do IPA. Em outubro do ano passado, SUMAÚMA esteve na mansão e mapeou, em reportagem, as ações de lobby do IPA, como as atividades na comissão especial da Câmara dos Deputados que discutiu, de 2016 a 2018, o PL do Veneno.
Fabricantes estrangeiros de agrotóxicos integram grupo de lobby que atua no Congresso com apoio da bancada ruralista. Foto: Julia Dolce/SUMAÚMANa nota a SUMAÚMA, a Syngenta defendeu suas práticas na relação com os poderes: “Ao longo das reuniões das quais participa, a empresa fornece informações sobre temas ligados à defesa dos interesses dos agricultores e da agricultura brasileira. Isso significa que a Syngenta mantém uma relação profissional com os mais diversos interlocutores, porque é uma empresa que preza pela ética e pelo respeito às pessoas”.
Falando pela Bayer, a CropLife Brasil não respondeu à pergunta sobre suas atividades de lobby ou grupos de pressão em Brasília (veja mais da manifestação da CLB ao final da reportagem).
‘Como fazer para sermos livres do agrotóxico?’
A cerca de 1,5 mil quilômetros do lobby em Brasília, a Terra Indígena Tirecatinga vive os efeitos dos agrotóxicos utilizados principalmente na produção do algodão. Ao longo da rodovia estadual que dá acesso ao território, a paisagem é dominada por extensas áreas de plantio do arbusto.
Quando SUMAÚMA esteve na região, em setembro passado, a fibra já havia sido colhida por máquinas e acondicionada em plásticos de cores variadas. Formam-se então enormes fardos de algodão, pesando cerca de 2,5 toneladas cada um. Extensas fileiras, a perder de vista, compostas por essas bolas azuis, cor-de-rosa ou verdes, se espalham pelas fazendas à espera dos caminhões que vão levá-las às fábricas têxteis.
A produção do algodão na região de Sapezal conta com “diversos incentivos fiscais”, apontou o estudo da Universidade Federal de Mato Grosso, “como o Fundo de Apoio à Cultura do Algodão (Facual), cuja liberação de tributação varia de 50% a 75%”.
Segundo o estudo da UFMT, Mato Grosso foi o estado brasileiro “que mais aumentou a área plantada e a produção de algodão durante 18 anos (de 2001 a 2019)”. Sapezal e dois municípios vizinhos, Campo Novo do Parecis e Campo Verde, foram os maiores produtores de algodão no estado. De 2010 a 2019, a área plantada do arbusto na região aumentou 62%, enquanto a de arroz reduziu 70%.
Fardos de algodão em uma fazenda vizinha à Terra Indígena Tirecatinga, no município de Sapezal, em Mato Grosso. Foto: José Medeiros/SUMAÚMAA paisagem muda bruscamente quando o viajante se aproxima da TI Tirecatinga, onde a vegetação típica da transição entre Cerrado e Amazônia, com árvores retorcidas, ainda resiste intocada e protegida pelos Indígenas Nambikwara, Manoki, Paresi e Terena. A exceção é um terreno estimado pelos habitantes da TI em 10 mil hectares, que parte dos Indígenas também passou a usar para a monocultura, principalmente da soja.
É um pedaço do território ainda pequeno se comparado à totalidade da Terra Indígena, com 131 mil hectares, mas as pressões econômicas para o aumento da área plantada são evidentes. A lavoura da soja e de outros produtos na entressafra se tornou “uma importante fonte de renda para as comunidades”, dependentes de produtos como gasolina, diesel, óleo e gás de cozinha.
Nesse contexto, o estudo da UFMT e as críticas de parte dos próprios Indígenas ao uso dos agrotóxicos geram muita reflexão dentro de Tirecatinga.
O Indígena Geraldo da Silva Correia Terena disse que, nos anos 1980, seu ativismo foi determinante para o desfecho positivo do processo de demarcação do território, homologado em 1991. Naquela época, segundo Geraldo, “todos os fazendeiros vizinhos tinham pistoleiro, e eu brigava com eles”. Após a demarcação, porém, atritos desse tipo acabaram, não há mais registro de invasões do território para ações clandestinas de criação de gado ou agricultura, mas a presença do veneno no ar e na água se tornou um problema que, para Geraldo, ameaça o futuro do território.
“Hoje, graças a Deus, a gente é tudo vizinho. Eles [fazendeiros] nos respeitam, nós respeitamos eles. Mas hoje eles estão desrespeitando nós com esse negócio de agrotóxico. O agrotóxico hoje, pra nós, está sendo um negócio muito ruim. E agora eu pergunto pra vocês, e pergunto para mim: como nós vamos fazer para sermos livres do agrotóxico? Porque o algodão está a menos de 3 quilômetros da nossa área. A beirada do rio, tanto o Buriti quanto o Papagaio… Como agora vai iniciar as chuvas, as enxurradas, vai tudo pra dentro da água, né? E aí, como é que nós vamos ficar?”
Geraldo conta que a situação começou a piorar há sete ou oito anos, quando se intensificou o plantio do algodão na região. “O algodão está acabando com a nossa pesca, a nossa caça. Hoje nós não estamos tendo caça como era pra ter, como era antigamente.” As abelhas também estão deixando de existir. “A abelha precisa de 3 quilômetros de distância para buscar o néctar. E eu não tenho mais abelha. Eu não tenho jataí, não tenho mandaguari, não tenho abará. Não tenho uma abelha que nós chamamos arapuã. […] Tá acabando, tá sumindo tudo. Por causa do quê? Por causa do veneno. E a gente vê falar que perto da Terra Indígena, 3, 2 quilômetros, não pode usar agrotóxico. Mas o que mais eles usam é isso. Então como vamos fazer?”
‘O algodão está acabando com a nossa pesca, a nossa caça’, diz Geraldo Terena, liderança na Terra Indígena Tirecatinga. Foto: José Medeiros/SUMAÚMAA liderança Cleide Terena contou que a decisão de pedir um estudo à Universidade Federal de Mato Grosso e à Operação Amazônia Nativa foi tomada após o aparecimento de problemas de saúde considerados raros na Terra Indígena, como doenças do aparelho respiratório, dores de cabeça severas e até casos de aborto espontâneo. “Muitas doenças chegaram no nosso território sem a gente saber o que causava. A gente ficou muito preocupada com essa situação. A gente viu a necessidade de conhecer quais doenças o agrotóxico podia causar dentro do ser humano.”
Mãe de Cleide, Terezinha Amazucaerô vive com o marido em outra parte do território, na beira do Rio Papagaio, em um prédio abandonado da antiga sede da missão religiosa de Utiariti, que funcionou ali até os anos 90 como um internato para jovens e crianças indígenas. Diferentemente dos moradores da aldeia Serra Azul, o casal precisa usar a água do rio para beber, tomar banho e preparar a comida.
“Lá pra cima tem muitas fazendas. Lógico, tudo que eles plantam, junto com a enxurrada da chuva, vem pra cá. Mas eu não tenho outra opção. […] Eu não me sinto segura [com a água] porque, na época da enchente, isso aqui fica preto. Dá diarreia, dá ânsia de vômito. Mas eu vou fazer o quê? O agrotóxico vem lá de cima. E roda tudo aqui pra baixo.”
Em todo o estado de Mato Grosso, segundo o estudo da UFMT, houve 389 registros de abortos espontâneos de 2000 a 2018 na população indígena, e a mortalidade para malformações fetais é de 3,9%, enquanto na população não indígena o índice é de 0,5% – embora não seja possível fazer uma ligação direta entre esses casos e o uso dos agrotóxicos. De acordo ainda com o estudo, o agravamento dos problemas respiratórios entre os Indígenas, como pneumonia, bronquite e asma, ocorre nos meses de março a junho, período que coincide com o controle de “pragas” do algodão (março a maio) e a colheita do algodão (junho).
Quando o estudo comparou os dados de doenças renais dos municípios da bacia do Rio Juruena, onde se localiza Sapezal, com os do estado de Mato Grosso de um modo geral, observou-se “uma tendência crescente e positiva das doenças renais, com uma variação percentual anual de 54% no período (2008-2018)” para o estado e 87% para a bacia do Juruena.
A Indígena Terezinha Amazucaerô mergulha no Rio Papagaio, em Sapezal, usado pela comunidade com preocupação. Foto: José Medeiros/SUMAÚMA
Cachoeira de Utiariti, na divisa da Terra Indígena Tirecatinga, no município de Sapezal, em Mato Grosso. Foto: José Medeiros/SUMAÚMA
Menino indígena bebe água trazida por caminhão-pipa para a aldeia Serra Azul, evitando a água envenenada do rio. Foto: José Medeiros/SUMAÚMA
Indígenas constroem uma casa tradicional na Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal. Foto: José Medeiros/SUMAÚMA
A aldeia Serra Azul sofre com a aplicação de agrotóxicos perto da Terra Indígena Tirecatinga, em Mato Grosso. Foto: José Medeiros/SUMAÚMA
Vista aérea da Terra Indígena Tirecatinga, no município de Sapezal, em Mato Grosso. Ao fundo, fazendas expandem suas plantações. Foto: José Medeiros/SUMAÚMA
Agrotóxico em conflito agrário ‘é arma química’
O algodão que domina a paisagem no entorno de Tirecatinga é a quarta cultura em todo o país que mais utiliza agrotóxicos, segundo um estudo de 2021.
A pesquisa da UFMT indica que foram consumidos em Mato Grosso cerca de 226 milhões de litros de agrotóxicos em 2019, dos quais 31 milhões (ou 13,9%) foram para o plantio do algodão. O estudo calcula que, só em Mato Grosso, cada habitante foi exposto a 65,8 litros de agrotóxicos em 2018. Contudo, em algumas cidades do interior, como Sapezal, a exposição por habitante pode ter ultrapassado os 300 litros ao ano.
Alguns dos casos mais recentes de intoxicação por agrotóxicos em Mato Grosso foram registrados num acampamento habitado por cerca de 200 trabalhadores rurais sem terra na zona rural de Jaciara, a cerca de 150 quilômetros de Cuiabá. O caso também chamou a atenção do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso.
Em dezembro de 2024, os pesquisadores da UFMT fizeram uma visita técnica ao local. Constataram que os moradores sofriam de doenças como decorrência direta da pulverização dos agrotóxicos, “seja por aspersão direta e criminosa sobre as pessoas, seja pela deriva da pulverização aérea, seja pela lama tóxica que é levada às fontes de abastecimento”. Foram encontrados “problemas de saúde nas vias respiratórias, intoxicações agudas, problemas de pele, nos olhos, alergia, além de produzir insegurança alimentar e empobrecimento pelo fato de matar sua produção de hortifrutigranjeiros”.
O estudo transcreveu depoimentos dos moradores. “Antes, eles [jagunços] andavam armados, agora estão nos matando com o veneno”, diz uma pessoa. “Eles não querem matar as pragas, eles querem nos matar”, reforça outra.

O levantamento da Universidade Federal de Mato Grosso solicitou ações imediatas do governo estadual na área da saúde e uma fiscalização da Secretaria Estadual de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema) “para averiguar eventuais crimes ambientais, sobretudo em relação à destruição de nascentes e desrespeito à legislação de distância mínima para pulverização por agrotóxicos”.
Os moradores do acampamento, batizado de Gleba Mestre I, fizeram a SUMAÚMA uma série de relatos sobre o que chamam de “ataques químicos” que teriam sido promovidos por fazendeiros vizinhos que arrendam terras de uma usina de álcool. A terra já foi arrecadada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) ainda nos anos 1980 para ser convertida ao programa da reforma agrária do governo federal. Contudo, impedida por decisão judicial, a União ainda não transformou de fato a área em assentamento, paralisada por um imbróglio judicial que se arrasta por mais de 11 anos. Nesse meio-tempo, a maior parte da terra, com cerca de 5,6 mil hectares, foi arrendada para plantadores de soja, milho e algodão. Já os sem-terra permanecem com autorização do Incra em barracas de lona numa porção de apenas 500 hectares – à espera do assentamento.
A reportagem esteve no acampamento no último mês de setembro. A comunidade vivia em risco de despejo por uma decisão do desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) Eduardo Martins, que, em junho, acolheu uma apelação cível movida pelos donos da usina de álcool. Ele determinou que o Incra se abstivesse de “promover qualquer assentamento de trabalhadores sem terra na Gleba Mestre I até o pronunciamento definitivo da Turma” do tribunal.
A Procuradoria junto ao Incra, braço da AGU (Advocacia-Geral da União), ajuizou um recurso na Turma do TRF1 contra a liminar do desembargador. Em sessão que analisava o mérito no dia 15 de outubro, outro desembargador pediu vista do processo e, assim, suspendeu o julgamento. A Defensoria Pública da União (DPU) também atua em defesa dos agricultores sem terra e deverá fazer uma manifestação no Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH).
“Requer [que] seja considerada a prova documental que demonstra que a Gleba Mestre I integra o patrimônio da União e que demonstra a ilícita ocupação patrocinada pelos agravados para deferir a imediata imissão [autorização para posse] da União na posse das terras da Gleba Mestre I e o seguimento da implantação do Projeto de Assentamento de famílias de trabalhadores sem terra que há mais de 20 anos se encontram acampadas nas imediações”, diz o recurso protocolado pela AGU no TRF1.
Enquanto o nó judicial não é desfeito, em meio a uma grande insegurança jurídica, as famílias acampadas na Gleba Mestre I relatam seguidos episódios de intoxicação por agrotóxicos, coação e ameaças por parte de seguranças privados. Os sem-terra já registraram diversos boletins de ocorrência na Polícia Civil, aos quais SUMAÚMA teve acesso.

Há dois anos, a diretora do Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Agrários do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Claudia Maria Dedico, foi à Gleba Mestre I e constatou “uso abusivo de agrotóxicos, conforme registros fotográficos e depoimentos colhidos no local”. No relatório, ela também afirma: “Após o relato de diversos casos de diarreias e de alergias na população, foi constatada a utilização de agente dessecante [substância química capaz de absorver água] na lavoura da Fazenda Bom Jesus, sem qualquer aviso ou precaução quanto à proximidade do dreno (fonte de água) da comunidade”.
Os moradores relataram a SUMAÚMA o uso dos uniports – equipamentos de pulverização do veneno – para amedrontar e perseguir os trabalhadores em estradas de terra. “É uma arma química. Foi usada propositalmente. Que nem no dia em que pararam na frente da casa do nosso companheiro. E o cara do uniport continuou descarregando a sobra da calda pra atingir o próprio morador. Eles levantam o braço do uniport lá no alto [e disparam o jato]”, contou Mario Demko, de 55 anos, um dos acampados, que registrou boletim de ocorrência contra uma fazenda arrendatária em 2023.
No segundo semestre de 2024, a acampada Juliana Antônio de Souza, de 42 anos, tinha acabado de sair do acampamento de carro, com seu marido e três filhas, duas gêmeas de 18 anos e uma de 6, em direção a Cuiabá. Na estrada, deram de cara com uma máquina uniport. A cada vez que o marido de Juliana tentava tirar seu Corsa da direção da máquina, o motorista mudava de pista para confrontar a família. Quando os veículos se cruzaram, o uniport despejou uma substância branca diretamente sobre o Corsa.
“Ele deixou nosso carro branquinho. E começou a queimar assim [na garganta]. O cheiro é muito forte”, disse Juliana. Com problemas respiratórios e ânsia de vômito, a família seguiu direto para um posto de saúde, onde recebeu receitas de remédios e antialérgicos. Até hoje, segundo Juliana, suas filhas têm problemas de pele e ela não pode sentir o cheiro do veneno que sua cabeça já começa “a doer muito”.
A acampada Maria Verônica Ferreira, de 58 anos, conta ter vivido uma situação semelhante. Quando ela voltava de carro com seu marido da feira onde costuma vender verduras, o casal cruzou com uma uniport. Sem nenhum motivo, disse Maria, uma substância branca foi disparada sobre o carro. “Eles jogaram veneno em nós. Eu fiquei sentindo dor de cabeça. Aí eu só ficava [indo ao] no médico. Ele falou pra eu fazer uns exames, eu fiz até mamografia. Pra saber, pra descobrir o problema que eu tinha. Eu fiz exame até em Brasília. Não veio o resultado ainda.”

Catarina Antônio de Souza, de 58 anos, mãe de Juliana, disse que a pulverização do veneno acaba com as hortas que ela procura cultivar nos fundos de sua casa de lona. “As plantações, tudo morria de veneno. Queimava tudo as nossas plantas. Minha horta ficava toda queimada de veneno. Eu plantava uma horta de hortaliça, de alface, cenoura, beterraba. Tinha uma época que dava certo. Mas tinha uma época que eles passavam veneno até de avião. E nos mandiocais de minhas hortas, minhas plantações, plantavam, plantavam e não conseguiam colher.”
Depois do episódio do “ataque químico” ao carro da família, conta Catarina, sua neta “nunca mais foi a mesma”. “Eu tô vendo que ela não está bem de saúde, não. Ela acorda assustada. Eu não sei se é do veneno. Ela fica uma menina agitada, ela tampa os ouvidos, não quer escutar um monte de barulho na cabeça. Chora muito.”
O presidente da Associação de Pequenos Produtores Rurais União da Vitória, Danilo Antônio de Souza, disse que as famílias se preocupam com a qualidade da água consumida no local, pois é captada em dois veios próximos das plantações de milho e soja. Uma enquete feita pela associação em novembro de 2024 com 50 das 160 famílias apontou que 54% dos entrevistados consumiam água proveniente da nascente e 44% do córrego, com apenas 2% comprando água mineral.
A pesquisa ouviu dos moradores que eles estavam sofrendo com dores de cabeça (32% dos entrevistados), diarreias (22%), alergias (14%), pneumonias (10%), coceiras (8%) e náuseas (8%), entre outros sintomas. A associação documentou com fotos e vídeos que a pulverização do veneno é feita tanto por terra quanto por ar, com aviões agrícolas.
Danilo afirma que uma reivindicação urgente da associação é a realização de exames de sangue em todas as famílias para “identificar a gravidade da intoxicação” e também uma ampla análise sobre a água e o solo. O presidente da associação disse que a entidade já levou todas as denúncias à Polícia Federal de Rondonópolis, em Mato Grosso – procurada por SUMAÚMA, a PF de Mato Grosso não havia se manifestado até o fechamento deste texto.

Proibidos na União Europeia, permitidos no Brasil
Em nota a SUMAÚMA, a CropLife Brasil alegou que não é possível comparar as normas que regem o uso de agroquímicos entre os países, pois há diferenças entre os “sistemas agrícolas de produção, fatores climáticos e ambientais”. E seguiu: “No Brasil, em condições tropicais, a pressão de pragas e doenças é maior do que na União Europeia (UE), que possui clima temperado. Isso exige um manejo fitossanitário mais intenso e a disponibilidade de diferentes produtos para o controle eficiente de pragas. Portanto, a ausência de autorização de um agrotóxico em um país ou bloco econômico não significa, por si só, que ele seja inseguro ou inadequado”.
SUMAÚMA apurou a atual situação dos cinco agrotóxicos identificados pela Universidade Federal de Mato Grosso na TI Tirecatinga em 2022 – atrazina, carbofurano, clorpirifós, tiametoxam e acetamiprido. A atrazina está banida da União Europeia desde os anos 2000. Ela é um contaminante “comum de corpos d’água, incluindo água potável, e tão perigosa para as pessoas quanto para animais selvagens que foi banida de mais de 60 países”, segundo o Centro de Diversidade Biológica, organização sediada nos Estados Unidos. Ele afirma que a atrazina “é um desregulador endócrino, o que significa que interfere nos processos hormonais do corpo”. “Na verdade, é o exemplo mais notório de desregulador endócrino, tendo demonstrado afetar pelo menos meia dúzia de vias hormonais em humanos. Seu dano mais notório é à fertilidade humana: é designada pela Califórnia como uma toxina reprodutiva, associada à redução da qualidade do esperma em homens e a ciclos menstruais irregulares e supressão da ovulação em mulheres. A atrazina também está associada a múltiplos defeitos congênitos em bebês, como a gastrosquise, na qual a criança nasce com os intestinos protuberantes através da barriga.”

Além disso, “pesquisadores do Instituto Nacional do Câncer dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), também sediado nos Estados Unidos, associaram a atrazina a vários tipos de câncer, incluindo linfoma não Hodgkin e câncer de próstata agressivo”.
Já o carbofurano está banido da União Europeia desde 2008. Estudo realizado por seis pesquisadores das universidades de Missouri e Flórida, nos Estados Unidos, indica que o contato e a ingestão da substância “causam alta morbidade e mortalidade entre humanos e animais domésticos”. “A exposição ocular ao carbofurano causa visão turva, dor, perda de coordenação, atividade anticolinesterásica, fraqueza, sudorese, náuseas e vômitos, dor abdominal, além de efeitos endócrinos, reprodutivos e citotóxicos em humanos, dependendo da quantidade e da duração da exposição. A exposição ocular a pesticidas lesiona a córnea, a conjuntiva, o cristalino, a retina e o nervo óptico, levando a movimentos oculares anormais e comprometimento da visão.” Ele acabou banido do Brasil em 2017.
Outro agrotóxico, o clorpirifós, deixou de ser permitido na União Europeia no começo de 2020 e, em fevereiro de 2022, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos chegou a revogar “todas as licenças anteriores”, mas o tema voltou a ser debatido após pressão de agricultores locais. Estudos científicos apontaram que a substância “pode representar sérios riscos à saúde, incluindo: danos ao desenvolvimento adequado e ao funcionamento posterior do cérebro (neurotoxicidade do desenvolvimento) desde os estágios iniciais da vida. Isso pode se traduzir em distúrbios do neurodesenvolvimento, como perda de memória de trabalho, autismo, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e diminuição do QI”. O clorpirifós pode ainda causar danos ao DNA (genotoxicidade), aumentando “o risco de desenvolvimento de câncer”.
O agrotóxico tiametoxam está proibido na União Europeia para uso externo desde o final de 2018, “exceto para culturas cultivadas em estufas permanentes”, decisão confirmada em 2023 pelo Tribunal de Justiça da UE.
A substância coloca em risco principalmente as abelhas. Um estudo brasileiro de 2017 apontou que a tiametoxam “reduziu a sobrevivência de larvas [de abelhas] e pupas e, consequentemente, diminuiu a porcentagem de abelhas emergentes” e “induziu importantes distúrbios fisiológicos”, o que pode “afetar o desenvolvimento da colônia”. O estudo lembrou que a espécie de abelha analisada “desempenha um papel importante nos níveis econômico e ambiental”, contribuindo “com mais de 80% da polinização total na agricultura”. Alerta também para o “número crescente de relatos sobre o declínio da população de abelhas em todo o mundo”.
A comercialização do acetamiprido, segundo a imprensa francesa relatou em agosto passado, é autorizada pela União Europeia, mas permanece banida da França. A substância continua sob escrutínio público, com relatos de que a UE recentemente determinou a redução dos “níveis de acetamiprida nos alimentos, após o envio de cartas e evidências” pela organização não governamental PAN Europe.
Em 7 de janeiro de 2026, a França anunciou uma limitação de importação de produtos agrícolas, em especial os de origem sul-americana que “recebem tratamento com agrotóxicos proibidos na União Europeia”. A medida foi vista por observadores como uma resposta do governo francês às pressões dos agricultores franceses contrários à assinatura do acordo comercial União Europeia-Mercosul.

O que dizem os gigantes globais do agrotóxico
Na nota enviada a SUMAÚMA, a CropLife Brasil (CLB) afirmou que um levantamento próprio concluiu que “a maioria dos ingredientes ativos (IAs) utilizados na fabricação de defensivos químicos também está autorizada nos principais mercados globais”.
“Das 319 substâncias aprovadas no Brasil, apenas 57 (18%) não possuem registro para uso nos Estados Unidos e na União Europeia. Por outro lado, dos 364 registrados no país norte-americano – quantidade maior que a do Brasil –, 125 (35%) não possuem registro para uso na agricultura brasileira. O mesmo ocorre com a União Europeia: dos 254 aprovados, 86 (33%) não estão presentes no mercado brasileiro. Os dados reforçam que a decisão da aprovação das substâncias considera fatores comerciais, demandas locais e necessidades específicas em cada [país] no contexto agrícola”, diz a CLB na mesma nota.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), segundo a CLB, apontou, em 2021, que o Brasil ocupava “a 41ª posição no ranking global de aplicação de defensivos por hectare – um índice equivalente a cerca da metade do observado em mercados menores, considerando toda a área plantada. O indicador evidencia que o uso proporcional brasileiro é moderado e compatível com o das principais potências agrícolas do mundo, contrariando a percepção recorrente de uso excessivo”.
Um estudo da própria FAO, que cobre o período 1990-2022, contudo, concluiu que o Brasil “foi o maior usuário mundial de pesticidas em 2022, com 801 kt [quilotoneladas métricas] de aplicações de pesticidas em uso agrícola. Isso representou um aumento de cerca de 70% em relação aos Estados Unidos (468 kt), o segundo maior usuário”. As 801 quilotoneladas métricas citadas no estudo equivalem a 801 milhões de quilos.
Na mesma nota a SUMAÚMA, a CLB escreveu: “O setor tem consciência de sua responsabilidade para a promoção de uma agricultura cada vez mais sustentável e inovadora, que alia produtividade à preservação ambiental e à proteção da saúde humana e, por isso, mantém compromisso contínuo com a promoção das boas práticas agrícolas a partir do uso correto e seguro das tecnologias no campo”.
Em nota, a Syngenta também alegou que “diversos fatores podem determinar a existência do registro de uma substância em um país e não em outros, como a diferença dos cultivos, incidência de pragas e doenças, existência de produtos com maior inovação, custos dos estudos regulatórios, taxas de registro versus a necessidade daquele ingrediente ativo, questões climáticas e de solo, entre outras particularidades”.
A empresa disse que “o fato de um determinado ingrediente ativo não ter sido registrado ou aprovado em um país não significa que ele passou [por] uma avaliação que o proibiu por apresentar riscos à saúde ou ao meio ambiente”. “Na maioria dos casos, a ‘não aprovação’ diz respeito a três tipos de substâncias: as que nunca foram avaliadas; aquelas para as quais não houve pedido de renovação de registro; ou sobre as quais a empresa requerente não atendeu aos requisitos burocráticos, como o não pagamento de taxas para manutenção de seu registro. Portanto, é preciso diferenciar claramente cada situação e seu contexto.”
A Basf afirmou que todos os seus produtos são “amplamente testados, avaliados e aprovados pelas autoridades competentes, seguindo os procedimentos oficiais de aprovação estabelecidos nos respectivos países”. Disse ainda que “reforça a segurança de suas soluções, quando usadas corretamente, seguindo a bula e as diretrizes de uso responsável” e que estabelece práticas que apoiam a gestão responsável e ética ao longo do ciclo de vida de seus produtos. “É importante entender que existem grandes diferenças entre os cultivos, o solo, o clima, as pragas, as doenças e as práticas agrícolas em todo o mundo. É por isso que a Basf adapta as suas soluções de acordo com as necessidades de cada região onde atua”, completou a nota.
Tanto a CLB, indicada pela Bayer para responder ao questionamento de SUMAÚMA, quanto a Syngenta reforçaram que, para um produto ser utilizado no Brasil, ele deve passar por avaliação da Anvisa, do Ibama e do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). “Esses órgãos reguladores podem solicitar a reavaliação de um produto a qualquer momento, sempre que houver novas evidências apontadas pelas organizações internacionais das quais o Brasil faz parte. Outro ponto importante a destacar é que, após terem o registro concedido pelo Mapa, pelo Ibama e pela Anvisa, o estado do Amazonas também exige cadastro estadual. No entanto, a Syngenta não registra produtos no estado do Amazonas justamente para que não sejam utilizados lá”, diz a corporação.
Sobre atividades de lobby em Brasília, a Syngenta afirma que “mantém um diálogo constante com autoridades, governos, órgãos reguladores, mídia e sociedade, visando a informação e o debate baseados na ciência”. “A Syngenta conduz todas as suas tratativas de forma ética e transparente. Ao longo das reuniões das quais participa, a empresa fornece informações sobre temas ligados à defesa dos interesses dos agricultores e da agricultura brasileira. Isso significa que a Syngenta mantém uma relação profissional com os mais diversos interlocutores, porque é uma empresa que preza pela ética e pelo respeito às pessoas.”
O que diz quem deveria proteger a vida
Ao ser procurada por SUMAÚMA, a Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema) disse que “atua no monitoramento dos rios, onde há suspeita de contaminação de água por agrotóxico e também no combate ao desmatamento e outras atividades”, mas as informações solicitadas sobre agrotóxicos deveriam ser dirigidas ao Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea). Contudo, quando procurado, o Indea não se manifestou.
Em Brasília, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) afirmou, em nota, que “a presença de agrotóxicos nas plantas medicinais da TI Tirecatinga é reflexo do seu entorno, altamente dedicado ao cultivo de algodão e outras culturas de larga escala”. “A TI Tirecatinga, bem como as TIs Paresi e Utiariti, em área contínua à TI Tirecatinga, são imensos ‘filtros’ de Cerrado nativo aos agrotóxicos, numa região rica em nascentes de água. A situação seria pior caso elas não estivessem ali.”

O órgão indigenista informou que não tinha conhecimento do estudo da Universidade Federal de Mato Grosso, mas “vê a situação com extrema preocupação para a subsistência das populações indígenas expostas aos corpos de água totalmente contaminados”. “O aumento do uso de agrotóxicos preocupa a Funai, tanto na Amazônia como no restante do país. A preocupação se refere não só aos agrotóxicos permitidos, mas também aos novos agrotóxicos autorizados no país e, ainda, aos proibidos que entram ilegalmente por regiões de fronteira, algumas vezes atravessando Terras Indígenas.”
Em nota, o Ibama informou que não possui “competência legal para autorizar o uso de agrotóxicos no território nacional”, já que “a autorização de uso, comercialização e fiscalização da aplicação de agrotóxicos é de responsabilidade dos órgãos estaduais de meio ambiente, conforme estabelecido pela Lei nº 7.802/1989 e pelo Decreto nº 4.074/2002”.
O órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima disse atuar “exclusivamente na etapa de avaliação ambiental para fins de registro”. “Essa análise tem como objetivo identificar os possíveis impactos dos produtos sobre o meio ambiente, a fauna e a flora, antes que o registro seja concedido pelos órgãos competentes. Após a conclusão dessa etapa, a autorização de uso e a fiscalização in loco cabem aos estados, por meio de suas secretarias ou institutos ambientais.”
Em nota a SUMAÚMA, o Ministério da Saúde confirmou que três aldeias na região de Sapezal “recebem regularmente o abastecimento de água potável”. “Para fortalecer o acompanhamento dessa pauta, a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) criou o Comitê sobre Mercúrio, Agrotóxicos e Outros Contaminantes Ambientais, responsável por coordenar ações e estratégias de atenção primária e saneamento relacionadas à contaminação nos territórios indígenas.”
