Amazônia no abate: gado de ‘frigorífico Verde’ da JBS vem de fazendas onde desmatamento equivale a uma Paris
Levantamento inédito mostra que unidade da multinacional em Tucumã, no Pará, comprou gado de áreas com 12,9 mil hectares de desmatamento; JBS e seus financiadores serão denunciados em quatro países europeus
Adriano Wilkson, Rio Branco, Tucumã, Amazônia. Com a colaboração de Fábio Bispo – 5 de novembro de 2026
O silêncio da tarde se quebra apenas quando o caminhão sobe a pequena rua de terra e balança sob o peso de toneladas de animais amontoados em seu último dia de vida. Do alto você pode vê-los, apertados como sardinhas em lata, o couro branco em contraste com o laranja do solo enquanto o caminhão estaciona na frente do portão do frigorífico da JBS, em Tucumã, no sul do Pará.
Um boi antes do abate pode pesar até 700 quilos. Para que esse volume de corpo vivo se transforme em carne de boa qualidade, o animal não pode se estressar em seus últimos momentos de vida. É por isso que, ao desembarcar, o gado é levado a currais onde jatos de água caem constantemente para refrescá-lo e também lavá-lo da sujeira e das fezes acumuladas na estrada: é o banho de aspersão, uma boa prática da indústria.
Depois do banho, segundo manda o protocolo, os bois são encaminhados em fila, sem tumulto, até a caixa de insensibilização. Lá receberão um tiro com uma pistola pneumática na cabeça, para que seus córtex cerebrais sejam desativados e eles não sintam dor, outra boa prática do setor. Em seguida, serão erguidos pelas patas, sangrados até a morte e cortados em pedaços que serão vendidos para vários estados brasileiros e países tão distantes como Japão, Egito, Arábia Saudita, Irã, Timor-Leste, Filipinas, Emirados Árabes e Peru.
É assim que as coisas funcionam no frigorífico da JBS em Tucumã, uma cidade de 40 mil habitantes no sul do Pará, região altamente impactada não apenas pelo que acontece com o gado depois que ele chega ao matadouro. Mas também pelo que vem antes: desmatamento, trabalho análogo à escravidão e invasão de áreas protegidas e de Terras Indígenas.
Em 2009, o Ministério Público Federal começou a propor aos frigoríficos uma série de acordos em que as empresas se comprometeriam a comprar gado apenas de fazendas que cumprem integralmente a legislação ambiental. Pelas cláusulas do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne assinado pela JBS, seus frigoríficos, como o de Tucumã, não podem comprar de fazendeiros que desmatam a Amazônia, que invadem Terras Indígenas ou que submetem seus trabalhadores a condições degradantes. Essa unidade da JBS, criada em 2010, também é um dos Escritórios Verdes da empresa, um programa que ajuda os fornecedores a concluírem a regularização ambiental de suas fazendas.
Mas essa investigação, que analisou toda a cadeia de fornecedores diretos e indiretos da unidade em um período de três anos, encontrou uma história diferente.

A pedido de SUMAÚMA, o Center for Climate Crime Analysis (CCCA), uma organização especializada em dados de crimes florestais, examinou três conjuntos de guias que mostram o percurso do boi até o frigorífico. São as chamadas Guias de Trânsito Animal, ou GTAs. Com isso, foi possível mapear a cadeia de fornecimento que abasteceu a JBS de Tucumã entre janeiro de 2022 e junho de 2025. Nesse período, foram enviados 380.505 animais ao frigorífico por 1.223 fornecedores diferentes, uma média de 298 animais por dia. As informações dessas fazendas foram cruzadas com os dados do Programa de Monitoramento do Desmatamento da Amazônia Legal (Prodes), que usa imagens de satélite para verificar a derrubada das florestas.
O resultado é que, entre 2008, um ano antes de a empresa assinar o Termo de Ajustamento de Conduta da Carne, e 2025, as áreas onde estão as fazendas que venderam gado especificamente à JBS de Tucumã registraram 12,9 mil hectares de desmatamento detectado pelo Prodes, uma área maior do que Paris, na França. De 2013 a 2025, houve uma diminuição no ritmo de derrubada de árvores, mas ainda assim se desmatou uma área equivalente a quase toda Olinda, em Pernambuco. Não é possível afirmar que o desmatamento tenha ocorrido durante o período exato que as fazendas forneciam gado à JBS, mas o dado ilustra como a movimentação da indústria da carne contribui para a queda da floresta e a crise climática do planeta.
A análise também confirma os achados da organização AidEnvironment, produzidos a pedido da Coalizão Jurídica Transnacional (TLC, sigla para Transnational Legal Coalition), divulgados neste 5 de novembro em oito denúncias protocoladas no Reino Unido, Irlanda, Alemanha e Holanda. A organização aponta: o “desmatamento na Amazônia explodiu” em todas as áreas onde a JBS tem frigoríficos – são 21 em cinco estados: Acre, Pará, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins. Segundo a análise da ONG Holandesa, a JBS pode ser associada a mais de 6,5 milhões de hectares de terras desmatadas na Amazônia brasileira entre 1988 e 2026. E ao menos 83% das 3.329 propriedades que fornecem gado diretamente à multinacional tiveram episódios de desmatamento. O mesmo foi verificado em 55% dos 9.247 fornecedores indiretos. Assim como a CCCA, a organização holandesa também avaliou as Guias de Trânsito Animal (GTAs) dos frigoríficos da JBS e as cruzou com os dados de desmatamento desde 1988.
Os dados levantados pela CCCA mostram casos individuais de fazendeiros que chamam a atenção.
O principal fornecedor da JBS de Tucumã foi condenado por ocupar uma Terra Indígena. Outro entrou na lista suja do trabalho escravo e foi condenado a pagar uma multa milionária por desmatar um parque nacional. Um terceiro, segundo o Ministério Público Federal, construiu seu patrimônio comprando gado criado ilegalmente em Terra Indígena e depois vendendo-o à JBS a partir de sua fazenda “limpa”, fora da área invadida, uma prática conhecida como lavagem de gado.
Procurada por SUMAÚMA, a JBS informou que bloqueou alguns desses fornecedores depois de descobrir irregularidades em suas fazendas. “A JBS monitora 100% de seus fornecedores diretos na Amazônia por meio de imagens de satélite de alta resolução e cruzamento de informações de bases oficiais”, escreveu a multinacional. Mas o que o levantamento analisado por SUMAÚMA mostra é que, para driblar o monitoramento da empresa, os fazendeiros triangulam gado entre diferentes propriedades, limpando o caminho dos animais até o frigorífico, um problema que a JBS também poderia identificar.
Fazendo negócios com o frigorífico dos irmãos Wesley e Joesley Batista, esses homens acumulam terras, concentram riqueza e estão transformando uma parte cada vez maior do sul da Amazônia em pasto para alimentar o boi. O resultado pode ser presenciado por qualquer viajante que se aventure pelas estradas do sul do Pará: onde antes havia mata, hoje há grandes planícies de pasto, fumaça e carcaças bovinas esquecidas no acostamento.
Nesta quinta-feira, 5 de novembro, a Coalizão Jurídica Transnacional (TLC), um grupo formado por cinco organizações internacionais, incluindo o Kings College, parceiro de SUMAÚMA na série Insustentáveis, fará denúncias contra 11 bancos financiadores, prestadores de serviço e fundos de investimentos ligados à JBS em quatro países europeus – Reino Unido, Irlanda, Alemanha e Países Baixos – com base na legislação europeia de combate à lavagem de dinheiro. Entre os bancos denunciados está o Banco do Brasil, que tem uma filial no Reino Unido.
A ação da TLC se baseia no entendimento de que, caso esteja negociando gado produzido de maneira ilegal (como aquele criado em área de desmatamento não autorizado ou Terra Indígena), a JBS estaria lucrando com um produto ilegal, o que seria de lavagem de dinheiro de acordo com a definição da legislação desses países.
E, ainda de acordo com a legislação europeia, as instituições financeiras que emprestam dinheiro à JBS não estariam cumprindo as obrigações impostas pela legislação de combate à lavagem de dinheiro ao fazer negócios com o frigorífico brasileiro.
Depois de percorrer três cidades do sul do Pará, SUMAÚMA procurou os advogados de três proprietários que estão na lista dos maiores fornecedores da JBS de Tucumã, todos com irregularidades ambientais ou trabalhistas apontadas por sistemas de monitoramento de desmatamentos ou órgãos oficiais, como Ministério Público e Funai. Os defensores disseram que entrariam em contato com seus clientes, mas eles não haviam respondido até a publicação desta reportagem.

Sebastião Pé de Cobra
O gado pasta tranquilo no terreno íngreme da “Chácara Estrela”, fazenda vizinha à área do frigorífico de Tucumã, ao norte da cidade. Chácara é o nome que se dá a pequenas propriedades rurais, geralmente usadas para lazer ou descanso de seus ocupantes, mas no caso da Estrela esse nome parece inapropriado.
Segundo o Cadastro Ambiental Rural, essa propriedade tem 320 hectares, uma área equivalente a 448 campos de futebol padrão Fifa. No papel, ela pertence a Marilene Lopes, mas na cidade todos afirmam que seu dono de fato é o marido de Marilene: Sebastião da Silva Lopes, mais conhecido como Sebastião Pé de Cobra. Aos 69 anos, o fazendeiro natural de Dueré, no Tocantins, é uma figura ilustre entre os pecuaristas de Tucumã, tão ilustre que seu nome batiza o Parque de Exposições Agropecuário da cidade.
Entre 2022 e 2025, a Chácara Estrela vendeu 2.045 bois para sua vizinha, a JBS, um número que a fez entrar na lista dos principais fornecedores da empresa na região. Existe uma aparente normalidade na relação entre a fazenda e o frigorífico, duas propriedades que podem ser vistas de qualquer ponto da cidade. Mas o cenário muda quando se analisa o caminho que o gado percorre antes de chegar a Tucumã.
Uma das fazendas que fornecem animais à Estrela se chama SMG, uma área de 2.331 hectares a 67 quilômetros de Tucumã. Localizada em uma região de difícil acesso, onde só se chega por pequenas vicinais no meio da mata, a SMG pertence à Agropecuária Três Poderes, que por sua vez também pertence a Sebastião Pé de Cobra e sua esposa. A SMG já figurou na lista de irregularidades trabalhistas do Ministério do Trabalho. Em 2013, Sebastião Pé de Cobra esteve na lista suja do trabalho escravo por infrações encontradas nessa fazenda.
Ao lado da SMG, o fazendeiro tem ainda outra propriedade, a fazenda Uberama. Entre 2019 e 2026, o MapBiomas emitiu 17 alertas de desmatamento na Uberama, totalizando 58 hectares dos 2.957 da fazenda. O MapBiomas emite os alertas com base em inspeção visual de imagens de satélite, mas não define a legalidade ou ilegalidade do desmatamento.
Cinquenta e oito hectares pode ser considerado um desmatamento insignificante se você considerar o desastre atribuído a Pé de Cobra no Parque Nacional da Serra do Pardo no começo dos anos 2000. Essa região localizada entre os municípios de Altamira e São Félix do Xingu é o lar de espécies ameaçadas de extinção, como a arara-azul, ave que vive nas grandes seringueiras que margeiam o Rio Pardo. Foi lá que décadas atrás Pé de Cobra se instalou e onde resolveu fundar a fazenda Santa Maria. Para tanto, ele destruiu 3.612 hectares de Floresta Amazônica nativa. A madeira nobre foi vendida e no terreno morto ele plantou pasto para suas 12 mil cabeças de gado.
A área derrubada é equivalente a 5 mil campos de futebol – ou ao município paulista de Guaratinguetá.
Na ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal, o fazendeiro confessou o desmatamento, mas disse que ele teria acontecido antes da criação do Parque Nacional da Serra do Pardo, em 2005. Portanto, não seria ilegal. A Justiça Federal não aceitou o argumento e, em 2025, condenou o fazendeiro ao pagamento de mais de 3,6 milhões de reais em multa e danos morais coletivos. Sebastião não pagou e até hoje recorre da sentença.
Enquanto se defendia nesse processo, ele usou outra fazenda de seu extenso rol de propriedades para vender gado para a JBS de Tucumã. Em quatro anos, entre 2022 e 2025, a fazenda Três Poderes enviou 783 bois ao frigorífico. Em 2025, o Prodes, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais que monitora desmatamento por satélite, também registrou derrubada de mata na Três Poderes, pouco mais de 9 hectares, apenas uma fração de todo o desflorestamento no histórico de um dos maiores fornecedores da empresa dos irmãos Batista.
Por meio de nota, a JBS confirmou que tem Sebastião como fornecedor. “A JBS esclarece que todos os negócios com a Chácara Estrela ocorreram em conformidade com o Protocolo Boi na Linha e com a política de compras responsável da Companhia”, disse a empresa. “A fazenda SMG encontra-se bloqueada. A Uberama nunca esteve na base de fornecedores da JBS.”
Na sexta-feira, 30 de outubro, a reportagem conversou por vídeo com o advogado Delson Júnior, que representa Sebastião na Justiça. O advogado disse que falaria com seu cliente. Dois dias depois, o procuramos novamente e deixamos recado com sua secretária. Mas o advogado não retornou até a conclusão desta reportagem.

Moisés Cândido e Las Casas
As carcaças apodrecidas ao longo da estrada dão à paisagem de São Félix do Xingu uma aparência de ruralismo mórbido. Essa é a capital paraense da pecuária, o município com o maior rebanho do Brasil, onde mais de 2,7 milhões de bovinos pastam nas planícies antes cobertas por mata. Nessa vastidão semiárida que se desenrola além do horizonte se destaca a Fazenda Sumaúma, a maior fornecedora da JBS de Tucumã. Daqui saíram 8.336 animais que percorreram 90 quilômetros para virar carne na cidade vizinha.
Parte da fazenda está dentro de uma Floresta Pública Não Destinada, um tipo de área de proteção ambiental que impede que a terra seja usada na agropecuária, salvo exceções muito restritas. Moisés Cândido da Silva, o dono da Sumaúma, possui outros 12 imóveis rurais apenas no Pará. Enquanto engorda, o gado do dono circula entre essas propriedades e chega finalmente à Sumaúma antes de ser vendido à JBS. Uma das fazendas de passagem é a Candeias, localizada no município de Redenção, também no Pará.
É aí que o maior fornecedor da JBS se encontra com uma comunidade do povo Mẽbêngôkre, também conhecido como Kayapó, que habita a Terra Indígena Las Casas, uma área homologada em 2009.

Na Casa do Guerreiro, ponto de encontro dos moradores no centro da aldeia, o cacique Paulo Tàkàkroti Kayapó relembra o ano de 1996, quando sua família resolveu colocar fim a uma desavença com parentes na TI Kayapó empreendendo uma viagem ao leste em busca de um novo lar.
Eles decidiram fundar uma nova aldeia em um pedaço de terra que no começo do século tinha sido ocupado por seus antepassados, alguns dos quais haviam sido mortos em ataques dos brancos. A paisagem era diferente da que eles estavam habituados: na vegetação típica do Cerrado não havia as frutas e os legumes que eles consumiam na floresta densa e úmida da TI Kayapó, localizada a 134 quilômetros de distância. A terra dura e seca dificultava o roçado. A caça se resumia a animais de pequeno porte, como periquitos e tatus, mas ao menos havia peixe no Rio Pau D’Arco, que serpenteia no meio da mata baixa.
Com apoio da Funai e organizados na Associação Floresta Protegida, uma entidade liderada pelos Mẽbêngôkre para a defesa do território, os habitantes de Las Casas construíram suas residências e a estrutura básica para sobreviver. Mas os 465 habitantes dependem de programas sociais do governo. “Plantar roçado é muito difícil porque o solo é duro e precisamos de apoio para trabalhar nele e ter nossa comida”, afirma o cacique Paulo Tàkàkroti.
A situação contrasta com a dos vizinhos, homens brancos que enriqueceram com uma atividade que os Mẽbêngôkre não dominam: a pecuária. Um desses vizinhos é justamente Moisés Cândido da Silva, dono da fazenda Candeias, colada à terra dos Indígenas e de onde, em junho de 2025, saíram 72 bois direto para a Sumaúma, que é fornecedora da JBS. De lá, os animais foram para o abate na JBS.
A Candeias colocou Moisés no centro de um conflito com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a Funai, que o acusa junto a outros nove fazendeiros de ocuparem ilegalmente o território que pertence aos Mẽbêngôkre. Em sua defesa, Moisés alegou que a Candeias se encontra fora da área da Terra Indígena. Mas em abril de 2026, o juiz federal Athos Alexandre Câmara Attiê deu razão à Funai e autorizou o uso de força policial para a desocupação da área em favor dos Indígenas, além do pagamento de indenização aos proprietários que tenham construído benfeitorias na área. Isso não foi feito até hoje.
Comprar gado de fazendas sobrepostas a Terras Indígenas é um dos vetos do TAC da Carne, assinado pela JBS em 2009. Moisés de fato cria gado na Candeias. Mas em setembro, quando a reportagem visitou a região, não foi autorizada pelos funcionários a entrar na fazenda para verificar se os animais avançam sobre o Território Indígena.
Liderados pelo cacique Paulo Tàkàkroti, os Indígenas Mebêngôkre fiscalizam os limites da Terra Indígena Las Casas. Fotos: Raimundo Paccó/SUMAÚMA
Em nota a SUMAÚMA, a JBS disse que as fazendas Sumaúma e Candeias foram bloqueadas do rol de fornecedores da companhia. A empresa não informou, porém, quando esse bloqueio ocorreu.
Na quinta-feira, 29 de outubro, a reportagem tentou contato com Moisés, por intermédio de seu advogado, Carlos Godoy Peres, que o representa na ação relativa à Terra Indígena Las Casas. Por WhatsApp, o defensor afirmou que tentaria encontrar seu cliente. A reportagem mandou outras mensagens na terça, 3 de novembro. Mas o advogado não retornou até a conclusão desta edição.
O lucro de Moisés com o comércio de gado concentra mais terras em suas mãos e na de seus familiares, que viraram donos de um complexo de fazendas à beira do Rio Xingu, já no território de São Félix. Ele também entrou em outro setor muito lucrativo, o de combustíveis. Um dos postos de gasolina de Redenção pertence ao fazendeiro.
Já o cacique Paulo Tàkàkroti não pretende entrar em conflito com os vizinhos. Ele gostaria, porém, que seu povo tivesse acesso livre às matas e aos rios onde seria possível caçar e pescar como antes, acesso que eles vêm perdendo com a chegada de cada vez mais pecuaristas à região.

A colonização que transformou a Amazônia
Os primeiros bois chegaram ao Pará ainda no século 17 pelos portos de Belém e do Marajó, mas o grande fluxo que permitiria ao estado se tornar uma potência da pecuária extensiva se daria apenas na segunda metade do século 20, com os esforços do regime militar de colonizar a Amazônia.
A ocupação do sul do Pará, que concentrou muita terra na mão de poucas pessoas, é uma obra dos militares, levada a cabo por grandes empresas nacionais e internacionais que lucraram com a exploração do solo e da madeira. Nos anos 1970, técnicos a serviço da construtora mineira Andrade Gutierrez sobrevoaram a região e atiraram do alto marcos que mais tarde viraram os limites do Projeto Tucumã: 400 mil hectares de terra amazônica privatizada em favor da empresa para a colonização.
No final da estrada PA-169, a Andrade Gutierrez dividiu a terra em lotes, cercou a área com correntes e fez anúncios publicitários em jornais do Sul e do Sudeste para atrair compradores para uma região distante. “Surge um novo Brasil no Sul do Pará”, dizia um panfleto de divulgação do projeto em 1981, prometendo que Tucumã contaria com “três cidades e sessenta núcleos urbanos, escolas, hospitais, rede de água e energia, rodoviárias, aeroportos, centros de pesquisas agrícolas e cooperativas”. O tamanho dos lotes variava conforme o uso que o comprador faria deles: os maiores e mais caros, de até 600 hectares, eram dedicados à pecuária.
O Projeto Tucumã se revelou uma fonte de especulação imobiliária para a Andrade Gutierrez, que pagou 0,87 dólar à União por cada hectare, e conseguiu vendê-los por até 87 dólares, obtendo nesses casos um lucro de quase 10.000%, muito acima dos 14% previstos inicialmente.
A maior parte dos colonos chegou de estados do sul do país, como o Paraná, os únicos com capital suficiente para comprar terras tão caras. Outros migrantes, vindos do Pará e do Nordeste e atraídos pela publicidade da Andrade Gutierrez, foram barrados na guarita de segurança que a empresa instalou na entrada de Tucumã, um povoado na época cercado por correntes. Sem renda para comprar os lotes, esses colonos tentaram diversas vezes invadir a área da empresa e foram rechaçados por seguranças privados, frequentemente com o apoio da Polícia Federal, segundo os historiadores Antonio Ronaldo Alencar e William Gaia Farias, da Universidade Federal do Pará.
Os migrantes pobres acabaram se dedicando a outra atividade lucrativa na região, o garimpo do ouro e da cassiterita – ou mesmo à prostituição para atender os garimpeiros. Os núcleos urbanos e rurais que eles fundaram virariam mais tarde os municípios de Ourilândia do Norte e Bannach, também às margens da estrada estadual.
Sem conseguir atrair compradores nem baixar o preço dos lotes, a Andrade Gutierrez não investiu na infraestrutura da região como tinha prometido. Poucos anos depois de seu início, o Projeto Tucumã já dava sinais de fracasso, mas a empreiteira ainda encontrou outra fonte de renda para seu capital: a venda do mogno das florestas sob seu controle.
Em 1988, após a redemocratização do Brasil, a Andrade Gutierrez abandonou Tucumã, não sem antes negociar uma indenização paga pelo governo federal de 6,6 bilhões de cruzados (245 milhões de reais em valores atualizados) pelas “benfeitorias” que deixou para trás: “casas de madeira carcomidas pelo cupim, estradas vicinais intrafegáveis e graves problemas de ordem social”, provocados por conflitos pela posse da terra na região, de acordo com Antonio Ronaldo Alencar e William Gaia Farias.
A reportagem procurou a Andrade Gutierrez, por meio de sua assessoria de imprensa, para comentar sobre a história do Projeto Tucumã, mas não obteve resposta.
A mineração e o gado continuam sendo os principais motores econômicos da região. E seguem no território as marcas dessa colonização, feita pela parceria entre Estado e o grande capital para exploração do solo e do subsolo da Amazônia. Em Ourilândia do Norte, por exemplo, a Vale instalou a maior mina de níquel do mundo, o Projeto Onça Puma, que produz 40 mil toneladas do minério por ano. E em Tucumã, os maiores fazendeiros continuam sendo aqueles que vieram do sul do Brasil, que vendem a maior parte de seus animais para outra empresa que se instalou na região com apoio decisivo do governo federal: a JBS.

Lavagem de gado em Apyterewa
Na segunda semana de outubro de 2026, os celulares de lideranças indígenas do povo Parakanã começaram a se encher de mensagens ameaçadoras. Eram áudios enviados por pecuaristas que anunciavam a invasão da Terra Indígena Apyterewa, também em São Félix do Xingu, de onde eles haviam sido expulsos em 2023 por uma decisão judicial.
Depois da desintrusão dos invasores, os Parakanã iniciaram um processo de retomada e refundaram aldeias para ocupar novamente seu território perdido pela pressão das pastagens. Uma retomada cheia de idas e vindas, avanços e recuos, sempre ameaçada pela tentativa dos pecuaristas de recuperar a área.
Nas mensagens, os fazendeiros anunciavam agora que a invasão da Terra Indígena já estava marcada: o dia 25 de outubro, data do segundo turno da eleição presidencial.
Os fazendeiros se mostravam animados com o horizonte político que se desenhava com a ascensão da extrema direita: no dia 5, o senador Flávio Bolsonaro havia vencido o primeiro turno com margem confortável sobre o presidente Lula. E seu aliado no Pará, Daniel Santos, conseguira a maioria dos votos e se elegera governador sem precisar de uma segunda votação.
Os Indígenas denunciaram o caso à imprensa, e uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo informou que os órgãos de Inteligência do governo federal monitoravam as ameaças. Um agente da Polícia Federal considerou os áudios “preocupantes”.
Apyterewa é hoje um território conflagrado, palco da disputa sangrenta entre o avanço da pecuária e o direito das comunidades tradicionais de viver em sua terra.
E a presença da JBS, assim como a de outros frigoríficos na região, parece alimentar esse conflito.
A empresa não compra diretamente dos fazendeiros que produzem em Apyterewa porque isso contraria o TAC da Carne. Mas negocia com intermediários acusados de comprar gado na Terra Indígena. É o caso do casal Antônio Neto Alves Ferreira e Marilene Marques de Carvalho, proprietários do Sítio 02 Irmãs, localizado no distrito de Taboca, colado aos limites de Apyterewa.
Essa é uma fazenda de 70 hectares, dos quais 46 viraram pastagem. É, portanto, uma propriedade de pequeno porte, ao menos comparada com o padrão da pecuária extensiva da região. Mesmo assim, o 02 Irmãs vendeu, em dez anos, nada menos do que 47.660 bois para frigoríficos vizinhos, entre eles, quatro unidades da JBS, como a de Tucumã. Esse nível de produtividade é absolutamente incomum na pecuária. A produtividade pecuária de uma terra é calculada a partir de uma proporção entre a quantidade de animais produzidos, o tamanho do terreno em que ele é criado e uma medida de tempo, nesse caso, um ano.

Segundo um parecer técnico do Ministério Público Federal, a Agência de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará) considera que a produtividade da pecuária no estado pode chegar a até 1,5 unidade de animal por hectare por ano. Ou seja, cada hectare no Pará produz em um ano um boi e meio, no máximo.
De acordo com os dados declarados pelo casal Antonio Neto e Marilene Carvalho, o sítio deles produziu 156 unidades de animal por hectare apenas em 2022, 100 vezes mais do que o máximo projetado pela Adepará. Os procuradores que analisaram o caso estranharam a desproporção e foram investigar de onde esses animais vieram antes de chegarem ao sítio do casal.
Uma parte deles, mais precisamente 3.723 bois, teria vindo direto de 27 fazendas sobrepostas ao território de Apyterewa. Eram invasores do Território Indígena que, não podendo vender direto aos frigoríficos, utilizariam os documentos de uma fazenda fora da Terra Indígena para concluir o negócio.
Para o MPF, o caso do Sítio 02 Irmãs ilustra muito bem como funciona a lavagem de gado, uma forma de ludibriar os mecanismos criados para impedir o comércio de gado ilegal. Em agosto de 2024, o juiz federal Carlos Gustavo Chada Chaves determinou o bloqueio de 11 milhões de reais em bens do casal, a busca e apreensão de seus celulares, além da suspensão do comércio de gado. E, em novembro do mesmo ano, os procuradores do MPF pediram à Justiça que condenasse o casal a pagar mais de 15 milhões de reais aos Parakanã pela compra e venda de gado criado ilegalmente no Território Indígena. Esse pedido ainda não foi julgado.
Em sua defesa, Antonio Neto e Marilene Carvalho admitem o comércio com fazendas sobrepostas ao Território Indígena, mas dizem que não é seu papel definir se esse produto é ilegal ou não. Segundo o advogado Gustavo Oliveira Rocha, seus clientes são “pessoas de pouca instrução escolar. Sempre trabalharam no campo e com compra e venda de gado. Não são conhecedores dos detalhes sobre a demarcação, homologação, desobstrução da TI Apyterewa ou de TAC da Carne. Desde que chegaram ao Município de São Félix do Xingu, […] sempre trabalharam no ramo de compra e venda de gado e não faziam distinção de cliente por localidade, vez que, sempre acreditavam que se houvesse algo errado ou ilegal a Adepará, ao emitir a Guia de Trânsito Animal, travaria a transação. O que nunca ocorreu”.
A reportagem procurou o advogado Gustavo Oliveira Rocha na última quinta-feira, 29 de outubro, para tentar um contato com o casal Antonio Neto e Marilene Carvalho. Pelo WhatsApp, o advogado disse que falaria com seu cliente. Enviamos uma nova mensagem cinco dias depois, mas o advogado não retornou até a conclusão desta reportagem.
Embora as Guias de Trânsito Animal comprovem que o Sítio 02 Irmãs comprou gado de fazendas da Apyterewa e que, depois, o mesmo sítio vendeu gado para vários frigoríficos, inclusive a JBS, não é possível definir se um animal específico que chegou a um determinado frigorífico foi criado em Território Indígena. Isso porque a trajetória do boi não é descrita individualmente na GTA, apenas em lotes. Então o gado criado ilegalmente pode ter se misturado ao gado legal e assim entrado na cadeia de fornecedores sem deixar rastros.
Em setembro de 2024, o Pará se tornou o primeiro estado do país a anunciar um sistema de identificação individual do boi por meio de um chip anexado à orelha do animal, como um brinco. A ideia, defendida pelo então governador Helder Barbalho (MDB), era permitir fiscalizar a trajetória de cada animal pelo território e assim combater o desmatamento ilegal na pecuária. O projeto até hoje tem tido baixa adesão dos pecuaristas, que alegam que ele aumenta os custos da produção. No final de 2025, passada a COP30 e buscando o apoio do agro para as eleições, Helder estendeu o prazo de obrigatoriedade da brincagem do boi até 2030.
Hoje, no Pará, ninguém sabe se esse projeto será mantido. Principalmente porque Helder não conseguiu eleger sua sucessora. E também porque Daniel Santos, o governador eleito, conseguiu a vitória depois de uma campanha em que criticou a fiscalização de órgãos como o Ibama e o ICMBio sobre a atividade pecuária. Na semana após se eleger, ele anunciou como secretário de Meio Ambiente o advogado Vinícius Borba, que durante anos defendeu justamente os fazendeiros acusados de invadir Apyterewa.
Em nota, a JBS afirma que bloqueou o Sítio 02 Irmãs depois da divulgação do relatório do Ministério Público a respeito da Terra Indígena Apyterewa.

JBS abandona meta de redução de emissões
Se todas as pastagens da Amazônia fossem um país, este teria o tamanho da Espanha. São 508 mil quilômetros quadrados, aí incluídos florestas, bosques, campos, planícies, terras de comunidades tradicionais, margens de rios e córregos, casa de seres vivos e não vivos – mais de 12% de todo o território da Amazônia –, convertidos em comida de boi, segundo a plataforma MapBiomas.
Não é novidade a contribuição da pecuária ao desmatamento da maior floresta tropical do mundo. A produção industrial de rebanhos cada vez maiores é a causa e também a consequência da expansão dos negócios de frigoríficos como os da JBS. Fundada nos anos 1950 em Goiás como um açougue familiar, a empresa se tornou a principal produtora de carne do mundo, sempre se beneficiando de sua proximidade com o poder público e de uma estratégia agressiva de fusões e aquisições.
Como todo gigante do capitalismo, a JBS precisa se expandir eternamente e empreender uma corrida constante para ampliar e criar novos mercados para seus produtos. Em setembro de 2026, ela anunciou a criação da Genu-In Solutions, uma empresa que desenvolve alimentos, como iogurte e requeijão, e bebidas como água e cerveja, todos com alto teor de proteína.
Como a matéria-prima desse novo negócio é o colágeno e a gelatina tirados do couro do boi, se a projeção de expansão desse mercado se concretizar, mais animais serão necessários para a indústria, tornando ainda mais lucrativo o avanço da pecuária sobre novos territórios.
O impacto ambiental da pecuária vai além do desmatamento. O sistema digestivo bovino produz metano, um dos principais gases do efeito estufa. Mais bois causam mais aquecimento e agravam ainda mais as consequências da emergência climática.
Em 2021, como muitas empresas, a JBS anunciou que faria um esforço para zerar suas emissões. Mas em julho de 2026, a companhia revelou que, diferentemente do que vinha prometendo, suas emissões globais aumentaram para 191 milhões de toneladas, 22% a mais do que no ano anterior.
Essas emissões englobam toda a cadeia de fornecedores e clientes da JBS, o chamado Escopo 3. No mesmo dia do anúncio, a empresa afirmou que abandonaria a meta de zerar as emissões do Escopo 3 por considerar ser impossível controlar seus fornecedores. Sua nova meta ambiental inclui zerar apenas as emissões dos Escopos 1 e 2, que representam 3% do impacto de toda a sua cadeia produtiva.
A JBS afirma tomar medidas concretas para evitar negócios com fornecedores que desmatam, os órgãos de fiscalização identificam eventuais irregularidades e ativistas se organizam para denunciar as supostas omissões da companhia. Mas a maior parte dos pecuaristas ilegais na Amazônia continua usando os mais diversos métodos para driblar qualquer tentativa de controle.
Enquanto isso, mais um caminhão abarrotado de animais chegará ao frigorífico de Tucumã para o abate no momento em que você lê esta reportagem. E ninguém conseguirá dizer com certeza quantos crimes ambientais foram cometidos no caminho até lá.